“Em um café de Paris, uma moça, considerada bela para sua época e com idade avançada demais para estar sozinha, carinhosamente chama o garçon para fazer seu pedido. Era incrível ve-la ali sentada! Seus olhos marcantes, seu cabelo levemente cacheado dançando com a brisa suave do porto e seu jeito discreto chamavam atenção de qualquer jovem rapaz que passava. Ela não ligava! Tinha uma vida de traumas e tropeços e a unica coisa que conseguia prender seu olhar no momento, era o jornal que comprara na mão de uma criança na praça que passou indo para o café. A manchete era a seguinte “Chega ao fim a Primeira Guerra Mundial”! Subitamente, como que por destino, ela ouviu um alvoroço vindo não muito longe de onde estava. Ao olhar naquela direção viu muitas mulheres com flores, mostrando seus chapéus e sorrisos ao ver um navio atracando. Logo entendeu do que se tratava! Eram os soldados sobreviventes voltando para o conforto de seus lares, seus braços… A cena de muita festa e alegria a contagiou, mas uma imagem em particular fez uma de suas finas sobrancelhas arquear. Um soldado, vestindo o surrado uniforme verde musgo, corpo e rosto cansados, cabelos da cor do sol e um unico papel a mão. Ela que não saia da rotina de café e jornal havia um tempo, ficou intrigada em como aquele homem poderia ter aflorado um sentimento que nem ela conseguia interpretar no momento. Só parecia que os dois se conheciam ha muito tempo e que ela deveria ir lá conversar com ele como se fossem antigos amigos. Ela não precisou tomar tal atitude, pois o tempo, que pra ela pareceu ser um eternidade, fez com que ele chegasse perto dela e perguntasse com gentileza se ela conhecia um lugar onde ele pudesse passar a noite! Ela respondeu automaticamente que sabia onde ele poderia descansar o corpo para o dia seguinte e ofereceu companhia até lá, já que não era distante e ficava exatamente no caminho de volta pra casa! Ele, meio que sem jeito e encantado com a hospitalidade, pagou a conta da menina e aceitou sua companhia.
No caminho, andavam lentamente sobre a rua de ladrilhos e conversavam sobre tudo. Passavam entre as lojas de sapatos e tabacarias sem prestar muita atenção no movimento que os cercava, pois ele bastava pra ela, e ela pra ele. Com os olhos juntos o tempo todo, passaram por uma ponte onde corria um fino filete de agua calmo por baixo e era cercada por uma vegetação bem peculiar e bela, já que era primavera. Nessa hora eles pararam ao mesmo tempo, olharam o sol se por e deixaram os labios se encontrar naquela linda tarde em Paris! Pra ela, o sentimento antes confuso, acabara de ser definido e pra ele, a guerra tão sofrida, não passara de uma memoria distante nesse momento. Passaram o fim de tarde juntos sob as flores das arvores, só vendo a agua passar com a segurança que um sentia ao estar com o outro!
Isso se repetiu durante toda a primavera, todo o ano e muitos outros que se seguiram. Até que um dia ele sumiu e a deixou muito preocupada, desconcertada e desiludida por talvez ter vivido mais uma historia de amor fracassada.
Meses se passaram na ausencia dele e ela estava começando a conseguir não pensar em todos os momentos que passaram juntos. Até que numa tarde, alguem bate a porta! Ela desanimada, atende e sente seus olhos marejarem de emoção. Ele estava lá e a explicou que teve que fazer uma viagem de emergencia para resolver problemas que ele preferia não comentar naquela hora, pois estava com muita saudade do seu amor. A falta era tanta que eles esqueceram da vida e seus problemas.
Seis meses depois, se casaram e foram morar em um casa boa pra ele e humilde pra ela, onde tinha um lindo jardim que nenhum dos dois e nem ninguem da cidade poderia colocar algum defeito, mesmo porque ela trocou o café pelos serviços de jardinagem como hobby.
Um belo dia, quando chegou em casa, ele não conseguiu disfarçar sua cara de preocupação e foi logo contando que foi escalado para a Segunda Guerra Mundial, que já tinha começado. Ela, incredula e subitamente infeliz deixou suas luvas de mexer com terra por sobre a bancada e somente conseguiu dar um abraço apertado em seu homem, estatico de medo, e falar carinhosamente: “Eu te amo, e vai dar tudo certo!”
Enquanto a Segunda Guerra acontecia e chegava a um climax cada vez mais eminente, sua angustia tambem acompanhava o mesmo ritmo. Não aguentava de ansiedade para envolve-lo em seus braços novamente! E a guerra continuava, firme, avassaladora e cruel…
Finalmente, depois de muito sofrimento, chegou o grande dia em que ela ia ao mesmo local onde o tinha visto pela primeira vez para recebe-lo de braços abertos, pois ele não estaria sozinho novamente como antes… Os olhos eram apreensivos e saudosos! Aos poucos as pessoas iam saindo do navio e encontrando seus entes queridos, mas ela ainda não conseguia ver onde ele estava! Chorava de aflição e nervosismo! Foi só quando o porto começou a ficar cada vez mais vazio que o Comandante da expedição a chamou a uma sala na proa do navio e a entregou uma medalha e uma bandeira em memoria do seu marido!
Dez anos se passaram e ela, já não mais com a mesma beleza de sempre mas com a mesma gentileza e leveza, acordou pela manhã e ligou o rádio. Assim fazia toda manhã que ia arrumar a casa! Na sua estação preferida, o locutor anuncia uma musica…
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Ela escuta saudosamente e ve seu homem belo e com cabelos de sol, na sua farda imponente e séria em uma foto que guardava no criado mudo da sala entre duas poltronas. Limpa o porta retrato com carinho, quase que em camera lenta. Dá um suspiro lembrando os momentos agradaveis e finitos que passaram juntos e direciona o olhar entre as duas cortinas! Ela continuava vendo o jardim mais lindo de todos (já que mantinha seu habito de cuidar muito bem dele) só que crescido e com o fruto mais precioso que o seu falecido marido poderia te dar… Seu filho de cabelo loiro igual ao do pai! Ela então beija a foto do marido e sussurra “Eu te amo, e vai dar tudo certo”! Pousa o porta retrato no criado na mesma posição de antes e continua sua vida!”
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julho 15, 2010 às 12:49 pm |
Obrigado por me emocionar, Matheus.
=)